Um inventor independente

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De um protetor de unhas para roedores compulsivos até uma tecnologia de comunicação que ele batiza de H2X (Humano para Todas as Coisas): Paulo Gannam, 39, tem ideia para tudo, e hoje este inventor brasileiro é o nosso entrevistado especial. Ele vai nos contar de onde tira ideias para suas invenções, quais seus objetivos profissionais e ainda vai revelar um pouco das dificuldades que inventores independentes brasileiros, pessoas físicas, tem no momento de viabilizar seus projetos.

Confira a entrevista produzida com a colaboração da estudante de jornalismo Natália Tavares Leite Vieira.

1-Quem são os inventores independentes?

São pessoas físicas, não ocupantes de cargo efetivo, cargo militar ou emprego público, que sejam depositantes de pedido de patente no Instituto Nacional da Propriedade Industrial – INPI.

Anônimos criativos e insatisfeitos que estão em busca de soluções para problemas que identificam no cotidiano. Criam, com frequência, produtos inovadores que não tem chance nenhuma de ir ao mercado por falta de incentivos e parcerias estruturadas no Brasil. Estão em toda esquina, e uma boa parte deles compõe os 42% do total de depositantes de patente de invenção e os 60% do total dos depositantes de patentes de modelo de utilidade, segundo último levantamento feito INPI.

Livres para criar e desenvolver o que bem entenderem – mas, diferentemente das startups – presos pela impossibilidade de elevarem seus projetos a um patamar aceitável ao investidor privado brasileiro.

  1. Como você se tornou um inventor?

Devido a uma junção de irritação, mente acelerada, enxaquecas e experiências manuais caseiras com um creme de açaí na tigela que me levaram a tentar desenvolver uma máquina de sorvete de açaí que deu errado. Tudo isso, ao longo dos anos, foi me fazendo acumular ideias e mais ideias que eu estava sempre bolando e anotando ao observar o comportamento das pessoas e o funcionamento dos objetos. Isso ocorria tomando um cafezinho, colocando o pé na estrada e até no banheiro.

De posse de uma farta lista de “eurecas”, mas sem saber qual seria próximo passo, me dirigi a um escritório de propriedade intelectual para começar uma filtragem e, paralelamente, desenvolver provas de conceito de 4 invenções. Começava ali, há cerca de 11 anos, de forma intuitiva e com zero de experiência, minha vida de inventor…

      3- Que invenções foram feitas por você?A primeira diz respeito a um sistema de comunicação aplicável em vários mercados que permite que, através de um clique, você envie mensagens em texto ou áudio a quem disponha do mesmo sistema ou de um aplicativo. Une, preferencialmente, um hard e um soft, e pode gerar, por exemplo, um fluxo de dados sem precedentes no trânsito, estimulando a empatia e condicionando os motoristas a se comunicarem constantemente uns com os outros, com a infraestrutura e com pedestres. Batizei a tecnologia de H2X, ou seja “Humano para Todas as Coisas”.

Formado em Comunicação Social, Gannam acredita que a participação do ser humano no trânsito conectado será fundamental para fomentar a segurança e a prevenção de acidentes, além de um recurso complementar para possíveis deficiências de tecnologias como a V2V e a V2X.

Aqui há dois links para vídeos demonstrativos da ideia do inventor

A segunda invenção consiste num jogo de um ou mais sensores vinculados a um aplicativo, a um display, ao cluster ou a uma central multimídia do veículo, capaz de proteger pneus, rodas e calotas durante encostamento e estacionamento junto ao meio-fio. É uma mão na roda para quem tem dificuldades de executar baliza, e para quem tem luxo com o carro e odeia danificar suas rodas de liga leve, manchar pneus ou estourar calotas.

Arquivo pessoal

Uma prova de conceito 

A terceira invenção surgiu pelo fato de eu roer as unhas desde criança e jamais ter conseguido abolir este hábito de minha vida. Um protetor de unhas para portadores da Onicofagia, doença que acomete de 19% a 45% da população oscilando conforme a faixa etária. Reveste as unhas dos usuários de forma elegante e discreta. Este projeto teve sua patente deferida pelo INPI e está disponível para licenciamento ou sociedade.

A quarta invenção é de uma lixa para unhas três em uma com formato inovador porque permite lixar o contorno das unhas, nivelar, polir e dar brilho à sua superfície, com a vantagem de não causar esfoliações na pele que fica logo acima da cutícula – problema bastante observado em outros tipos de lixa. Este projeto também teve sua patente concedida e está disponível para licenciamento ou sociedade.

4- O quão difícil é conseguir parcerias? 

É quase que como ter as mesmas chances de se ganhar na loteria. Pense neste caso, que é uma boa amostra da realidade: um anônimo, de baixa ou, ainda que de média renda, sem bagagem em negócios, inovação, engenharia, redação e acompanhamento de patentes, que já tem outra atividade que lhe dá a condição de manter sua vida andando.

 Ele tem uma ideia inédita de um produto que pode ser escalável mundialmente e quer, de alguma maneira, aproximá-la do empresariado para que este a fabrique e a comercialize.

Praticamente todos os núcleos de “inovação”, institutos de “tecnologia”, e instituições ligadas ao “empreendedorismo” negam a ele a possibilidade de uma parceira para proteção intelectual, desenvolvimento do produto e aproximação deste produto com o meio empresarial. E quase 100% dos programas de aceleração inseridos em supostos ecossistemas de inovação sequer mencionam o nome “inventor independente” em seus editais.

Assim, o inventor acaba fazendo de sua ideia seu projeto de vida e provavelmente vai se frustrar e se angustiar muito ao longo dos anos devido à falta de resultados. Por não receber orientação, formação, nem verbas para poder acelerar seu projeto, corre o risco de ficar à deriva para sempre.

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5- Se não existe um apoio, principalmente no Brasil, por que se tornar um inventor independente?

Porque ser inventor é mais uma vocação do que profissão. É uma forma diferente de olhar para o mundo, de enxergar seus problemas e procurar ativamente soluções para resolvê-los – sozinho ou com a ajuda de outras pessoas que tenham mais conhecimento técnico do que você.

Ao procurar por parceiros, é estar preparado e se acostumar com respostas do tipo: “não temos capital”, “já temos nossos próprios projetos”, a “crise está feia”, “não trabalhamos com essa linha de produtos”, “não trabalhamos com licenciamento”, “não queremos ter de buscar clientes, fornecedores, para seu invento”, “trabalhamos só sob encomenda”, “você não é microempreendedor individual nem outro tipo de empresa, então não serve”…

6- O que te move?

A possiblidade de um dia eu conseguir algum resultado, deixando como legado algum produto bom para a sociedade, além de ter uma vida mais confortável e com alguma realização profissional. A motivação também é alimentada com aquela ideia de que “a melhor parte de uma viagem é o caminho, não o destino”.

7- Suas 4 invenções já estão sendo utilizadas?

As invenções estão disponíveis para licenciamento ou sociedade. Meu objetivo é encontrar empresas com estrutura em P&D e marketing para desenvolver os produtos finais, fabricá-los e comercializá-los nos mercados de atuação delas. 

8-Como você faz para divulgá-las? Existe um canal para isso?

 Houveram tentativas de se fazer plataformas, vitrines e feiras para expor a invenção do inventor independente para o empresariado tomar conhecimento, mas a maioria fracassou pela falta de visibilidade.

Um caminho é o do financiamento coletivo, que é quando várias pessoas que se identificam com o seu projeto resolvem contribuir financeiramente para que ele saia do papel. Baseado na economia colaborativa, tem como fundamento a premissa de que juntos todos podem conquistar seus objetivos.

 Mas eu emprego o método tradicional de divulgação porque não objetivo – assim como quase todo inventor independente – constituir empresa para alavancar os projetos que idealizei.

Objetivo transferir as tecnologias para que outras empresas estabelecidas ou emergentes possam viabilizá-los no mercado. Para isso, estou sempre em contato com empresas e com órgãos de imprensa, no intuito de apresentar meu trabalho. 

9- Você se sustenta com o seu trabalho de inventor ou é necessário trabalhar com algo paralelo?

Mantenho outras atividades, sobretudo como técnico em transações imobiliárias, que me trazem o sustento e que me permitem fazer economias para dar o andamento possível em meus projetos na área de patentes e no desenvolvimento das provas de conceito.

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10- O que separa as centenas de ideias que você tem estocadas das invenções já criadas até agora?

 As centenas são meros conceitos de produtos que podem resolver antigos problemas que eu venho observando ao longo dos anos. Essas ideias não foram validadas, patenteadas nem desenvolvidas. As demais já superaram algumas destas etapas e estão um pouco mais maduras.

 11-Se a lei beneficia muito mais pessoas jurídicas do que pessoas físicas, qual a solução encontrada por você para vender suas criações? 

Há várias formas de lidar com as contrariedades. Busco basicamente duas:

A primeira, mais objetiva, é continuar aperfeiçoando minhas formas de divulgação e apresentação a empresas, além de aumentar minha bagagem técnica, todo dia, um pouquinho.

A outra, mais subjetiva, é aceitar este estado de coisas, no espírito de um trecho da música de Jim Croce, “I got a name”, que diz que “se isto me levar a lugar algum, chegarei lá orgulhoso”. Aliado a isso, não me canso de lembrar de um trecho do filme Náufrago, quando Tom Hanks diz: “Tenho que continuar respirando, amanhã o sol vai nascer; ninguém sabe o que a maré vai trazer.

12- Existe algum movimento que visa mudar essa lei? Alguma organização para reivindicar?

Não conheço nenhuma entidade ligada a inventores que tenha papel efetivo de representar os interesses da classe junto ao Congresso. Cheguei a contatar alguns congressistas para tentar mostrar a importância de se igualar os direitos de inventores independentes aos de startups e pesquisadores vinculados a universidades para fins de acesso a programas de aceleração, desenvolvimentos, eventos, etc, mas não obtive retorno.

13-Você sabe se em outros países o modelo adotado é o mesmo ou é só o Brasil que não investe tanto nos inventores independentes?

Imagino que eles devam compartilhar dificuldades semelhantes, mas como em países mais desenvolvidos as economias tendem a ser mais robustas, e os empresários ter uma visão que valorize mais a inovação, entendo que o inventor lá fora tenha chances um pouco melhores de fechar um contrato de licenciamento. Além de ter uma condição financeira melhor para tocar seu projeto, ainda que por conta própria.

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14- Quais seriam as condições favoráveis, na sua visão, ao desenvolvimento/crescimento de inventores independentes?

 A lei de inovação não facultar, mas sim obrigar os núcleos de inovação a apoiar o inventor independente que vá buscar ajuda desses núcleos. Contatei quase todos os núcleos do país, e não ocorre nada além de conversa.

Os programas de aceleração e de inovação devem aceitar pessoas sem qualificação, sem equipe, sem empresa, sem faturamento, justamente para poder auxiliar e munir de conhecimentos aquelas que mais precisam durante o desenvolvimento e a validação de uma invenção no mercado.

Ano passado foram apresentados 611 pedidos de averbação de contratos de transferência de tecnologia no Brasil, sendo que 548 (90%) foram apresentados por empresas de médio e grande porte e 47 (8%) por MEI, microempresa e EPP. Pessoas físicas são invisíveis nessas estatísticas, apesar de todos os seus esforços e contribuições com a propriedade intelectual gerada…

15- Qual a importância da imprensa e da cultura empresarial nesse caso?

A imprensa precisa passar a ter pautas mais voltadas ao tema para fazer a opinião pública entender que é a ciência e a tecnologia – se bem direcionadas – que vão eliminar, ou pelo menos mitigar, a precariedade da vida humana em todos os sentidos, progressivamente e infinitamente, além de gerar grande fomento social e econômico. E que, sem exigir ações do governo federal e do legislativo para aumentar o incentivo e o financiamento a projetos, continuaremos na mesma por décadas, causando sofrimento eterno a quem tem a inciativa de inventar e a quem poderia ser beneficiado por esta iniciativa.

O empresário brasileiro precisa passar a enxergar a ideia de um inventor como uma oportunidade de fazer algo diferente da maioria e como uma forma de explorar comercialmente vácuos de mercado. Deve ainda levar em consideração que, com a patente, ele terá exclusividade de fabricação e comercialização em sua área de atuação, maior valor agregado, estará livre de competição, terá até 20 anos de possibilidade de exploração do invento, e maior valorização de seu patrimônio intangível.

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