“Pesquisa não influencia voto”

Fundador do instituto de pesquisa Vox Populi afirma que os levantamentos eleitorais são “fotografias” do momento por que passam os candidatos e a política

Nascido em 16 de dezembro de 1953, o cientista e pesquisador político João Francisco Meira fundou em 1984 a Vox Populi, empresa especializada em pesquisas eleitorais e de opinião pública, ocupando, atualmente, o cargo de diretor-presidente.

Cerca de cinco anos antes da fundação da Vox, Meira se graduou em Comunicação Social pela Universidade Católica de Minas Gerais. No ano seguinte, na Fundação João Pinheiro, também em Minas, se especializou em Marketing. Meira ainda é mestre em Ciência Política pela Universidade Federal de Minas Gerais (1983).

Nesta entrevista concedida ao Diário por e-mail, o pesquisador destaca que cada campanha é uma campanha diferente, ou seja, são casos específicos.

“Cada uma tem as suas peculiaridades e circunstâncias específicas de lugar, comunidade e grupos de pessoas que atinge”, diz.

Entretanto, explica alguns pontos pertinentes da pesquisa eleitoral como os ataques entre adversários, o Mensalão na corrida eleitoral deste ano e as chamadas “pesquisas internas”.

Diário de Cuiabá – Uma pesquisa eleitoral pode influenciar na escolha do eleitor?

João Francisco Meira – Não. A pesquisa é apenas um retrato da situação do momento. Antes de chegar a uma, digamos assim, “fotografia” eleitoral, houve movimentos permanentes de ação dos agentes políticos. As pessoas se esquecem de que a política é feita diuturnamente, todos os dias do ano – não apenas durante a campanha, quando realmente se intensifica – pelos detentores de cargos públicos ou pelos que os almejam. Assim, quando uma pesquisa é realizada, se for bem feita, dentro dos parâmetros internacionais de qualidade de levantamento da opinião pública, ela vai retratar o resultado do que os agentes políticos estão realizando ou realizaram naquele instante, naquela situação.

Diário – Nas eleições deste ano, os candidatos do PT estão tendo dificuldade nas capitais. O julgamento do “Mensalão”, que está bastante presente na mídia, tem alguma culpa neste fenômeno?

Meira – Cada caso é um caso, impossível de generalizar um fato qualquer, especialmente de nível nacional, para analisar seus efeitos locais, municipais. Teria que cada pesquisa ser analisada dentro do seu contexto. Mas, ao que parece, o chamado “Mensalão” não tem sido até agora detectado por nós como uma variável importante dentro do conjunto de fatores que faz o eleitor decidir por A, B, C, etc. De maneira geral, ele é citado como o décimo item de reivindicações ou influência de voto das pessoas. Antes vêm a saúde, a segurança, trânsito, educação e outros elementos.

Diário – Curiosamente, o candidato petista em Cuiabá, Lúdio Cabral, é o que mais cresce. Será que o eleitor cuiabano é menos permeável ao tema corrupção?

Meira – Não está no âmbito da Vox Populi fazer avaliações políticas deste tipo, pois a nossa especialidade é a pesquisa apenas. Mas, de antemão, não acredito que o povo cuiabano seja diferente de qualquer outro nacional ou internacional. Não acreditamos não: posso lhe garantir.

Diário – Em Brasília, existem projetos limitando a realização de pesquisas eleitorais. Qual é a opinião do senhor sobre o tema?

Meira – Nós defendemos a liberdade de expressão e opinião, artigo constitucional que se enquadra dentro da legislação em vigor sobre pesquisas eleitorais. Seguimos e seguiremos estritamente o que determina a lei eleitoral, seja ela qual for, quer seja ou não modificada pelos senhores congressistas. Mas, a princípio e por princípio, somos contra quaisquer limitações às enquetes políticas, desde que obedecidos os parâmetros internacionais acordados pelo país em órgãos representativos da maioria ou do total das nações. Parâmetros, por exemplo, que definem necessariamente a proporcionalidade populacional inquirida, em todos os termos socioeconômicos e de gênero. E outros requisitos próprios das ciências sociais.

Diário – Nas diversas pesquisas que são realizadas atualmente, quais os critérios que o eleitor deve levar em conta, como forma de filtrar todas as informações apresentadas pelos institutos?

Meira – Difícil responder pelo cidadão, único e exclusivo detentor do direito de escolha que lhe cabe nos pleitos que se apresentam. A recomendação cabível no caso é que o eleitor busque todas as informações possíveis sobre os candidatos, seja nas pesquisas divulgadas, na mídia ou na vizinhança, para votar com a maior isenção desejável em seu interesse, natural, mas, sobretudo, no interesse de todos, “porque homem nenhum é uma ilha”, já disse o poeta John Donne no século XVI, na Inglaterra.

Diário – O eleitor realmente pensa na máxima de não perder o voto? Isto é, vota no candidato líder nas pesquisas para que não perca a chance de eleger alguém?

Meira – Não acredito nesse fenômeno, exatamente pelo que já disse de ser a política uma atividade constante nas sociedades e não exercida apenas no momento do voto, embora assim pareça, por causa das campanhas, hoje, majoritariamente, eletrônicas. Mas, de fato, embora haja o interesse de alguns candidatos para que a votação seja polarizada – e decidida no primeiro turno, de preferência; evidentemente onde existe a possibilidade do segundo turno – a realidade brasileira tem demonstrado uma grande fragmentação de partidos, o que invalida a tese proposta em sua pergunta.

Diário – A eleição deste ano está polarizada entre um candidato que disputou as duas últimas eleições majoritárias sem vencer e um estreante neste tipo de eleição, embora seja vereador. O que pesa mais no primeiro turno: o recall ou a baixa rejeição? E no segundo turno?

Meira – Não há receita genérica para tal situação. Há casos de candidatos com baixo recall e, portanto, nenhuma ou pouquíssima rejeição, exatamente por não ser muito conhecido, e o contrário também. São vários fatores que convergem para a decisão do eleitor ou para a vitória de um candidato, sendo impossível distinguir um ou outro como sendo decisivo, ainda que seja do gosto das pessoas e da imprensa, essa síntese: “ganhou por isto”, “perdeu por aquilo”. A realidade é complexa e cada vez fica mais complexa com o crescimento do país e o surgimento de novos atores políticos, como, por exemplo, a ascendente classe C.

Diário – Ao que parece, o eleitor tem assimilado o discurso do candidato petista – de que, se ele vencer, os governos federal, estadual e municipal serão aliados. A que o senhor deve o sucesso deste discurso?

Meira – Este é um argumento válido como outros conceitos que remetem à ideia de união de esforços, congregação de grupos políticos, etc. Mas não devemos nos esquecer nunca de que o mandatário deve governar para todos, embora tenha sido eleito por um partido ou aliança de partidos. A discriminação é vedada pela Constituição para quaisquer entes da União.

Diário – Os temas aborto e liberação das drogas entraram de vez na campanha deste ano. Por que este debate ainda influencia tanto uma campanha cujos eleitos nem sequer terão poder para decidir sobre estas questões?

Meira – Os candidatos usam de todos os meios para alcançar o seu eleitorado, do adversário ou do eleitor indiferente. Esses são assuntos momentosos, emotivos, que mobilizam as pessoas, podendo lhes atrair a atenção e assim conseguir com que se envolvam com os demais temas próprios da localidade. É uma forma de chamar a atenção. Esses itens teriam que ser analisados, também, sob uma pesquisa sobre as condições locais, pois as circunstâncias de cada cidade mudam, são específicas e, dependendo do motivo, ele pode ser importante sim naquele lugar, naquele período ou momento de existência da população, independentemente do grau de poder que o eleito terá sobre o item especulado.

Diário – Até que ponto os índices de rejeição apresentados nas pesquisas podem, realmente, prejudicar o candidato?

Meira – Os índices de aprovação e rejeição têm de ser vistos em perspectiva, examinados em conjunto com outros vetores de ação de todos os candidatos.

Diário – Candidatos de Cuiabá destacam, nos bastidores, as chamadas “pesquisas internas”, que não são registradas no TRE. Qual a importância delas e em que pode ajudar o candidato, já que as registradas também dão um parâmetro teoricamente fiel?

Meira – As chamadas pesquisas internas são importantes para verificar a qualidade e o alcance das atividades de campanha do(s) candidato(s), desde a recepção de suas propostas pelo eleitorado, segmentado por idade, gênero, escolaridade, moradia, classe social, etc. Pode-se aprofundar melhor o conhecimento das intenções de voto a um nível grupal específico e então aperfeiçoar a mensagem do(s) candidato(s) que, às vezes, mesmo sendo viável, coerente e exequível, pode não estar sendo assim percebida pela população e/ou por segmentos identificáveis do povo.

Diário – Até quando um ataque direto pode ajudar o atacante e atrapalhar o atacado?

Meira – Há, de fato, uma regra não-escrita entre os publicitários ou marqueteiros de campanha de que “quem bate, apanha”. Mas isso não é detectável, nem objeto de pesquisa eleitoral, pelo menos da Vox Populi, que prefere levantar um amplo quadro de condições que viabilizam ou não um candidato.

Fonte:
http://www.diariodecuiaba.com.br/detalhe.php?cod=417825

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