Não é porque de repente sou da classe C que compro uma bolsa de 300 reais!

Fonte: CONSUMOTECA

http://www.consumoteca.com.br/consumo-popular/2012/10/19/nao-e-porque-de-repente-sou-da-classe-c-que-compro-uma-bolsa-de-300-reais

 

Em texto publicado na seção Opinião do jornal Folha de São Paulo em 15/07/2012, intitulado “De repente classe C”, um jovem universitário da “nova classe média”, morador da periferia da cidade de São Paulo, questiona os muitos holofotes direcionados sobre os ex-pobres, que, segundo a mídia e boa parte do mercado, agora são muito mais felizes porque podem comprar fogão novo, estudar em universidade particular, ou em cursos a longa distância, ou ainda viajar de avião, entre outras opções de consumo. No texto, diga-se de passagem, muito agradável de ler, o jovem aponta para a falta de senso de realidade com que esse segmento vem sendo tratado.

Comerciais, programas de TV e novelas com forma e conteúdo, imagina-se do gosto da classe C, tudo aparentemente bastante idealizado, abundam na programação. Estatísticas muito otimistas também são veiculadas quase que diariamente na grande mídia. Segundo a SAE* em informe intitulado “45 curiosidades sobre a Nova Classe Média”, este segmento é responsável por 78% das compras de supermercados, detém 70% dos cartões de crédito no Brasil e 80% das pessoas acessam a internet.

O que tudo isso tem em comum, conforme nos sugere o jovem paulista, ex-pobre, agora da classe C (como ele mesmo se define), é a falta de aprofundamento na realidade dura dessas pessoas. Mais de 50% dessa camada da população, segundo dados do IBGE, vivem em favelas, ou ocupações, e a grande maioria nas regiões periféricas das cidades. O que significa um trajeto duro e cansativo até o trabalho.

Além do que, as profissões da maioria dessas pessoas demandam esforço físico, pois nas palavras tanto do sociólogo Jessé Souza1, como do economista Marcio Pochmann2, essa trata-se de uma nova classe trabalhadora, absorvida de um grande contingente de pessoas com pouca escolaridade, alocada principalmente no setor de serviços e na construção civil, pois 94% das vagas criadas no país entre 2004 e 2010 foram de até 1,5 salários mínimos.

Todos esses dados introdutórios servem para pensar que a grana dessas pessoas é curta e muito suada, o que pode justificar, em boa parte, a fala de uma mulher que foi minha interlocutora em pesquisa etnográfica, realizada em 2011, em um conjunto habitacional na Zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro. Com renda familiar que a situa dentro da “nova classe média”, ela tem a seguinte opinião sobre o preço justo a pagar por uma, ou por quatro bolsas:

“Eu não dou trezentos reais em uma bolsa! Eu não! Eu não vou comprar, não. Eu tenho isso comigo, eu acho que não é toda hora que eu vou usar. Eu vou comprar quatro de setenta reais porque eu vou ter uma vermelha, uma azul, uma preta e uma branca. Então eu vou ter uma quantidade maior de bolsas e vou poder usar mais. Isso eu aplico para tudo que eu compro.”

Sim, existe um enorme potencial de consumo nesse segmento, isso está claro. Mas esse consumo é muito bem pensado, e a racionalidade lógica, que gera as atuais práticas de consumo desse público, foi engendrada ao longo da vida dessas pessoas, que até algum tempo atrás tinham que pensar se o feijão daria até o final do mês. E o que pode, à primeira vista, parecer uma atitude utilitarista diante do consumo, deve ser mais atentamente observado. Pois, numa atitude utilitarista, apenas uma bolsa já seria o suficiente, mas quatro bolsas podem servir em diferentes circunstâncias e custar o preço de uma, sendo bem mais interessante, pelo menos, para a minha interlocutora.

No livro, A Distinção: crítica social do julgamento, Pierre Bourdieu3, com base em dados empíricos da sociedade francesa, compara o gosto alimentar entre operários, contramestres, empregados burocráticos e professores. Apesar do contramestre, que um dia foi operário, na atual posição, ter uma renda maior que um empregado burocrático, seu gosto se aproxima muito mais do gosto dos operários. O que significa dizer que o aumento da renda não se traduz em mudança de hábitos e valores que são patrimônios imateriais herdados nos processos de socialização dos indivíduos.

Portanto, o gosto, o hábito de consumir as coisas, a origem e o significado dos rendimentos são muito diferentes em cada segmento social. É por isso que, volto a falar, a denominação “classe média” mais confunde do que ilumina sobre as formas de comunicar com esse enorme e heterogêneo segmento.

Qual a solução então para dar conta das lógicas que estão por trás das escolhas desse complexo universo de consumidores? Sem querer puxar a sardinha para a brasa dos métodos utilizados em antropologia (e já puxando), afirmo que a solução é fazer pesquisa etnográfica! Porque de estatísticas e ufanismos já estamos, por hora, bem servidos.

    Eliana Vicente

 

Referências:

* SAE – Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República.

1 SOUZA, Jessé. Os batalhadores brasileiros: nova classe média ou nova classe trabalhadora? Belo Horizonte: UFMG, 2010.

2 POCHMANN, Marcio. Nova Classe Média?: o trabalho na base da pirâmide social brasileira. São Paulo: Boitempo, 2012.

BOURDIEU, Pierre. A Distinção: crítica social do julgamento. São Paulo: Edusp; Porto Alegre, RS: Zouk, 2008.

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