Evolução da sociedade – Novo critério Brasil

Novo critério de avaliação de classes sociais no Reino Unido leva em conta “capital social” e “capital cultural” da população. Bem diferente do Critério Brasil

O Reino Unido divulgou, na semana passada, o mais extenso e completo estudo sobre classes sociais já feito por lá. Durante dois anos, sociólogos do Great British Class Survey (GBCS), órgão responsável pela pesquisa, se debruçaram sobre as mudanças não só na classificação econômica da sociedade britânica, mas, sobretudo, nas novas nuances culturais. Em vez dos tradicionais rótulos, como classes alta, média e trabalhadora, o novo estudo possui agora sete subclassificações: elite, classe média estabelecida, classe média técnica, novos trabalhadores afluentes, classe trabalhadora tradicional, trabalhadores de serviços emergentes e precários.

No país que praticamente inventou a concepção de classes, muito por influência do seu tradicional sistema monárquico, fica claro que, a despeito da miríade de nuances, classe social historicamente foi definida por ocupação muito mais do que por qualquer outro atributo. A grande novidade da pesquisa que acaba de sair do forno é a exploração desta concepção a partir de uma maior abrangência de avaliação, que os pesquisadores chamam de “capital social” e “capital cultural”.

No questionário aplicado para se chegar às definições, além de algumas perguntas relacionadas a propriedades, renda anual e poupança encontram-se, por exemplo, questões como: “com que tipo de pessoa você se relaciona socialmente?” Algumas das opções para essa pergunta passam por secretária, enfermeiro(a), professor(a), artista, presidente de empresa, cientista, motorista de caminhão, operador de telemarketing e contador. No entanto, a questão que talvez seja a chave para a nova classificação é “qual dessas atividades culturais você costuma praticar?” A lista de respostas compreende: visitar casas imperiais (no Reino Unido é comum esse tipo de hábito por causa da força da sua aristocracia), frequentar óperas, ouvir jazz, ouvir rock/indie, ir a shows, jogar videogame, assistir a esportes, ir ao teatro, praticar exercícios/ir à academia, usar Facebook/Twitter, receber amigos em casa, ir a museus e galerias, ouvir música clássica, fazer trabalhos artísticos e/ou artesanais, assistir a espetáculos de dança ou balé e ouvir hip hop/rap.

Os conceitos foram desenvolvidos pelo sociólogo francês Pierre Bourdieu. A ideia é que as redes sociais ou atividades culturais — as quais as pessoas costumam fazer parte ou praticar — contribuem para definir suas classes e perspectivas ao menos na mesma proporção que sua renda.

Ao observar essas conclusões, é inevitável pensar no Critério Brasil, há muito tempo ineficaz para retratar as diversas mudanças que a sociedade brasileira vem passando nas últimas décadas. O sistema de pontos para definir a classe do entrevistado leva em conta a posse dos seguintes itens: televisão em cores, rádio, banheiros, automóvel, empregada mensalista, máquina de lavar, videocassete/DVD, geladeira e freezer; e o grau de instrução do chefe da família. Além de se basear apenas no consumo e de itens muito básicos — alguns até em desuso — é absolutamente ultrapassado e não contempla transformações socioculturais nem as que a tecnologia tem proporcionado.

O item ter empregada doméstica mensalista, neste momento de mudança radical na relação trabalhista dessas profissionais, só corrobora que é necessária uma urgente revisão do Critério Brasil. A nova classificação social feita na Inglaterra, levando-se em conta todas as diferenças destas duas sociedades, pode ser um bom ponto de partida para se pensar em um critério um pouco mais próximo da realidade.

Este editorial faz parte da edição 1554 do Meio & Mensagem, com data de 8 de abril de 2013.

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