A Pesquisa da Vez: Ipsos Marplan 2012

Fonte:

http://globoesporte.globo.com/platb/teoria-dos-jogos/2012/10/23/a-pesquisa-da-vez-ipsos-marplan-2012/

por Vinicius Paiva

 

Há uma semana uma nova pesquisa de torcidas requentou o ultrapassado debate que envolve a condição de clube mais popular do país. Muita coisa se falou sobre o estudo divulgado pela Ipsos Marplan – e muito se deturpou também. Em parte pelo release bem mal escrito divulgado pelo instituto. Em parte pelo desconhecimento de questões relacionadas à abrangência geográfica da pesquisa. Por fim, setores da mídia que puxam sardinha para São Paulo (em busca de pontos adicionais no Ibope) enviesaram um bocado os resultados.

As informações abaixo foram obtidas em entrevista exclusiva com o diretor de contas da Ipsos Marplan, Diego Oliveira. Cabe ressaltar que se trata de uma empresa séria e com credibilidade no mercado. Não à toa, é contratada com frequência por empresas em busca de uma melhor identificação de seu público-alvo e suas potencialidades econômicas. Foi o caso da pesquisa em questão – em nada refletindo a configuração dos clubes em escala nacional, mas nas treze regiões selecionadas. Quais sejam:

O fato de haver duas regiões paulistas na amostra (capital e interior) nada significa. Os 41 milhões de habitantes do estado de São Paulo representam 21% da população brasileira (195 milhões) – e muito mais que isso no universo das regiões metropolitanas. Ainda assim, seus 2.757 entrevistados (1.795 + 962) significam 19% do universo total. Ou seja, ao contrário do que se pensa, São Paulo entrou subestimada na conta.

Mas isto também pouco traduz. A realidade das regiões metropolitanas foi um fato abordado pelo Blog Teoria dos Jogos há pouco mais de um ano. À época, a repercussão recaía sobre uma pesquisa Ibope realizada nas mesmas condições, apontando empate entre Corinthians e Flamengo (13% a 13%). Nada diferente do apresentado pela Ipsos Marplan:

Apesar da mídia ter divulgado a dianteira corintiana frente ao Flamengo por 19% a 18%, a verdade é que o resultado da pesquisa foi um empate em 14% a 14% entre ambos. Os dados da coluna à esquerda se referem ao universo de torcedores, ou seja, quando se exclui a conta “Nenhum”. Não é assim que se analisam pesquisas de torcida. O critério adotado pelo Blog Teoria dos Jogos é aquele que fotografa a condição das torcidas tendo como parâmetro a população em geral, incluindo aqueles que optam por não fazer parte de nenhuma das massas. Ou seja, os números da coluna à direita são os mais apropriados.

Por que um empate de 14% a 14% se tornou vitória por 19% a 18%? Devido à exígua margem existente na casa decimal. Quando se considera apenas o universo de torcedores, todos os percentuais sobem. O Corinthians cresceu a exatos 19,02%, enquanto o Flamengo ficou em 18,34%. Por pouco não se pode arredondar o time paulista para baixo (18%) ou o clube carioca para cima (19%), mantendo o empate.

Estes números são favoráveis à torcida do Corinthians? Relativamente. Se compararmos com o distante ano de 1993 (época da 1ª Pesquisa Placar/Ibope), vemos que o Flamengo era líder também em meio às regiões metropolitanas:

Verificou-se queda tanto do Flamengo (de 16% a 14%) quanto dos demais cariocas (Vasco de 6% para 4%, Flu de 4% para 2% e Bota de 3% para 2%). Mas isto não significa que tenham perdido espaço para paulistas. O Corinthians, que marcava quase 14%, praticamente manteve o índice. O mesmo se aplica ao São Paulo (7%), enquanto o Palmeiras cresceu (de 4% para 5%) e o Santos caiu (3% para 2%). Ou seja, a queda das torcidas cariocas nas regiões metropolitanas é atribuída ao aumento das torcidas locais – clubes cearenses, baianos, catarinenses ou paranaenses. Comparemos os números em cada RM em 1993 e em 2012:

O fato é que a realidade das regiões metropolitanas não pode nem deve ser projetada para o interior. Eis o que torna tão interessante a configuração de torcidas neste país continental. Ao se afastar de Curitiba, o próprio Corinthians destrona o trio local, ganhando status de maior torcida do Paraná. Condição bem mais acentuada quanto ao Flamengo – absoluto no interior de estados como Bahia, Ceará, Goiás ou Santa Catarina (e em boa parte de Minas). Muito do interior brasileiro tem como hábito contrariar suas capitais, num processo de flagrante rivalidade intraestadual.

Por todo o exposto, o Blog Teoria dos Jogos conclui:

1)      Regiões metropolitanas representam indispensáveis centros de consumo, tornando natural que sejam estudadas e mapeadas. Já a projeção das mesmas como uma realidade brasileira é errônea, inocente ou mal intencionada;

2)      Apenas neste contexto, a torcida corintiana superou a do Flamengo nas últimas décadas, ainda que pouco tenha crescido nos últimos 20 anos – a base da “ultrapassagem” foi o crescimento dos clubes locais sobre os cariocas;

3)      A maior torcida do Brasil (interior considerado) é a do Flamengo, por larga margem. Situação ratificada a cada novo estudo de caráter nacional, como a última pesquisa Stochos Sports & Enterteinment, em breve analisada neste espaço. Não há evidências de modificação no perfil nacional de torcidas (muito menos em seu topo) pelos próximos anos.

Um grande abraço e saudações!

E-mail da coluna: teoriadosjogos@globo.com

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