A FEBRIL CAMPANHA DOS ESTATÍSTICOS

Os estatísticos, num delírio de grandeza, querem convencer o Senado Federal que a profissão de Pesquisador de Mercado não pode existir porque já existe a profissão de Estatístico. Sua entidade máxima, o Conselho Federal de Estatística (Confe), vem fazendo uma campanha contra o projeto de lei (ref. 1) que visa a criar nossa profissão. Num dos documentos aprovados pela plenária do Conselho (Carta do Confe ao Senado a respeito do PLC 138/2010, de 2011, ref. 2), lê-se:

             Mas, as únicas atividades fixas, constantes em todo projeto de pesquisa de mercado são as dos: estatísticos, entrevistadores, codificadores, recrutadores, verificadores; cujas atividades já estão todas previstas no Decreto 62.497 de 01/04/1968 que regulamenta a profissão do estatístico.

O leitor certamente estará abismado com o que acaba de ler. No entanto, o que acontece é pior: o Decreto 62497 (ref. 3), não fala de entrevistadores, codificadores, recrutadores e verificadores. Essas palavras, nem no plural, nem no singular, nem os verbos correspondentes, nem os conceitos, simplesmente não aparecem no texto do decreto.

Além de fazer essa referência falsa ao decreto, a campanha do Confe tenta discutir o conceito de multidisciplinaridade. Dizem eles que a pesquisa de mercado é um aglomerado de disciplinas e que a Estatística é a rainha delas, a disciplina fundamental. Entretanto, eles mesmos afirmam naquele documento:

             Multidisciplinares são todas as profissões, todo profissional conta em sua formação com várias disciplinas articuladas e conexas que no todo constituem a área. 

E logo acrescentam:

              Para desenvolver um projeto de pesquisa de mercado basta juntar os profissionais pertinentes ao tema e executar as tarefas.

Não tivesse o Confe a importância que tem, não fosse a carta dirigida ao Senado, o leitor concordaria que é perda de tempo rebater essas bobagens. Contudo, a circunstância atual, com a regulamentação em curso, exige que se deixe bem claro que nenhum grupo de “profissionais pertinentes” consegue fazer pesquisas de mercado. O principal conhecimento do pesquisador de mercado é a Pesquisa de Mercado. Em variadas ocasiões, o pesquisador de mercado usa conhecimentos de um vasto conjunto de disciplinas acadêmicas. A lista não é pequena: Marketing, Psicologia, Demografia, Economia, Geografia urbana e rural, Estatística e outras. O leitor rapidamente acrescentará Semântica, Ciências Políticas, Semiótica, Sociologia, Antropologia, Etnografia, Lógica, Comunicação, Análise de Textos (em mídia social e outros), Publicidade, Comunicação, Ética e Filosofia. Em algum momento, algum leitor terá usado algum outro conhecimento além dos listados aqui.

O que importa é entender que todas essas disciplinas são recursos de apoio, recortes dessas áreas de conhecimento, e que para ser pesquisador de mercado não é necessário ser psicólogo, nem sociólogo, etc. Não é necessário nem suficiente, pois nenhuma daquelas disciplinas prepara o pesquisador de mercado. Basta lembrar, entre muitos outros exemplos possíveis, que fazer um questionário ou moderar um grupo são atividades nas quais o pesquisador de mercado é mais competente do que qualquer dos especialistas das disciplinas da relação acima. E vale dizer que o estatístico é jejuno nessas duas atividades centrais da pesquisa de mercado.

Acresce que a amplitude as Pesquisa de Mercado é tal que os profissionais têm especialidades. Assim, alguns nunca têm de usar as Ciências Políticas, outros jamais precisam conhecer Publicidade nem usar os recursos da Antropologia e assim por diante. Certamente, um grande número de pesquisadores de mercado exerce com perfeição sua atividade sem saber nada de Estatística, e muitos precisam apenas de noções triviais dessa disciplina, sendo raras as pesquisas que requerem conhecimentos aprofundados. É óbvio que a Estatística tem seu lugar na pesquisa de mercado, mas vai uma diferença abissal entre ser um recurso importante e confundir-se com toda a profissão.

Se alguma disciplina se destaca das outras em sua importância para o pesquisador de mercado, certamente é o Marketing, e não a Estatística. Noções de Psicologia, Sociologia e Publicidade também prevalecem sobre a Estatística. Porém, de novo e sempre, o que é realmente imprescindível é o conhecimento específico de como fazer pesquisa de mercado.

É deplorável que, por pura megalomania, o Confe despreze os constrangimentos e as dificuldades de milhares de trabalhadores que vêm há anos pleiteando o reconhecimento de sua profissão.
Saiba o leitor, para entender bem a razão de ser deste artigo, que a regulamentação da nossa profissão abrange, naturalmente, os entrevistadores, que são denominados como técnicos no projeto de lei, e que a campanha do Confe os inclui como previstos e regulamentados pela profissão de Estatístico! Leia de novo a primeira citação literal da estarrecedora carta do Confe, no começo deste artigo, e mais esta (no mesmo documento):

          As atividades definidas pelo PLC 138/2010 geram colossal superposição com as atividades do profissional de Estatística, tanto no bacharelado quanto no técnico de nível médio, ambas definidas no Decreto 62.497 de 01/04/1968.

Psicólogos, antropólogos e sociólogos ocasionalmente dedicam-se à técnica de fazer entrevistas, mas é o pesquisador de mercado o maior especialista dessa difícil parte de seu trabalho. Os jornalistas também entrevistam, mas as entrevistas de pesquisa de mercado, quantitativas ou qualitativas, individuais ou em grupo, face-face ou por telefone, são uma especialidade única da nossa profissão. Os médicos estudam técnicas de entrevista para fazer a anamnese. No entanto, jamais ocorreria a médicos ou jornalistas afirmar que há uma “colossal superposição” entre suas atividades, nem entre ambas e a nossa. E é de conhecimento geral que entrevistar é, por muito, a atividade mais frequente da pesquisa de mercado.

Ora, o Confe afirma, sem pudor, que os entrevistadores, codificadores, supervisores e outros profissionais (somos mais de cinco mil) não precisam de uma profissão, por estar ela prevista no tal decreto que não diz uma palavra sobre eles. Deixamos para o leitor a busca da palavra justa para qualificar o que faz quem apregoa habilidades que não tem.

O Confe diz aos senadores que a Pesquisa de Mercado é uma “aplicação” da Estatística… O autor da tal carta dá outras atividades que ele também chama de aplicações da Estatística: Econometria, Epidemiologia etc. Acontece que os profissionais que trabalham nessas atividades têm suas profissões; são médicos, economistas etc. Tudo o que nós queremos é ter o reconhecimento legal de nossa profissão. Não somos “Aplicadores de Estatística”, somos Pesquisadores de Mercado.

Os pesquisadores de mercado lidam o tempo todo, na qualitativa e na quantitativa, com emoções, sentimentos, percepções, cognições, hábitos, comportamentos, símbolos, atitudes, preferências, processos de decisão, imagem, memória, escolhas, valores e sensações. Tudo isso é currículo de Psicologia. Nem por isso põem-se os psicólogos a fazer lobby contra nossa profissão e a considerar-nos “Aplicadores de Psicologia”; seria uma pretensão absurda. Mas, pensando bem, absurdo por absurdo, o dos psicólogos seria um pouco menos absurdo que o dos estatísticos.

Se a campanha do Confe funcionar, teremos de nos acostumar; o moderador entra na sala e diz:

Boa noite, meu nome é Fulano, sou Aplicador de Estatística e gostaria de…

Finalizando, uma charada: Qual será a motivação do Confe, em seu acesso de onipotência, ao tentar impingir ao Senado ideias falsas que fariam corar um estatístico ciente do alcance e dos limites de sua profissão?

Referências:

Ref. 1 – PLC 138, DE 2010: Projeto de Lei que Regulamenta as Profissões de Pesquisador e Técnico de Pesquisa de Mercado, Opinião e Mídia.
Disponível em http://www.abep.org/plc138.pdf 

Ref. 2 – Carta do CONFE ao Senado: datada de 08 de fevereiro de 2011
Documento que visa a não aprovação do Projeto de Lei que regulamenta a profissão de pesquisador de mercado, alegando superposição à atividade de estatístico.
Disponível em http://www.abep.org/cartaconfe.pdf

Ref. 3 – Decreto nº 62.497, de 1º de abril de 1968: Aprova o Regulamento para o exercício da Profissão de Estatístico.
Disponível em:http://www.estatistica.ccet.ufrn.br/arquivos/legislacao/decreto_62497.pdf

Fonte: ABEP

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7 comentários sobre “A FEBRIL CAMPANHA DOS ESTATÍSTICOS

  1. Para realizar coleta de dados, tem que ser estatístico? Quero ver …. Eles não tem é entendimento do processo… o que eles fariam sem os outros atores deste processo até que chega as mãoes deles o resultado de uma coleta de dados. Lamentável.. a falta de visão e o medo de não se sustentarem…

  2. Você já fez a faculdade de estatística? Pelo visto não… coletar dados meu caro não é tão simples assim. Pois é temos entendimento do processo e como ele é feito e assim planejamos como deve ser feito, ou voc já viu um eng. civil construindo uma parede? A ignorância das pessoas, chega a tal ponto de falarem o que não sabem … O estatístico tem matérias relacionadas a como fazer uma pesquisa de mercado, e é bem verdade sim que precisamos de outros profissionais, por isso trabalhamos juntos com eles para realizar uma pesquisa. Agora esse Pesquisador de mercador não iria atuar com outros profissionais? Como é isso dele aprender todas as profissões?

    É uma carreira completamente inutil, visto que já há um profissional competente para se fazer o trabalho. E esse Pesquizador de mercado, também iria analisar esses dados ou só trabalharia na coleta?

  3. Eu não gosto da forma como os estatísticos têm tentado capitalizar tudo que evolve estatística (econometria, epidemiologia, ecologia, data mining, …). Sou matemático e poderia dizer que na verdade tudo isso involve na verdade aplicações de matemática – nem existe a profissão de matemático e sou contra sua criação. Mas uma coisa é clara, está explícito na lei que regulamenta a profissão de estatística:
    – Planejar e dirigir a execução de pesquisas e levantamentos estatísticos
    Só faltou a palavra mercado aí no meio, mas está implícita. Então, legalmente, para regulamentar a pesquisa de mercado, alguma alteração a profissão de estatístico teria que ser feita.

    As áreas de estatística, pesquisa de mercado, marketing, economia e outras, tem que se unir e não se dividir em profissões altamente espíficas e dependentes.

  4. “…um grande número de pesquisadores de mercado exerce com perfeição sua atividade sem saber nada de Estatística, e muitos precisam apenas de noções triviais dessa disciplina.” Quais noções triviais? Saber calcular uma média, moda, mediana e desvio padrão? Utilize somente esses conhecimentos triviais e, certamente, a pesquisa será um grande fracasso.

    Se uma empresa, por exemplo, realiza uma pesquisa de mercado para medir a aceitação de um novo produto no mercado. Como você, Rosane Aragusuku, tomaria a decisão de lançar o produto? Apenas olhando a frequência relativa de quem gostou contra quem não gostou do produto?

    Sou aluno de estatística, mas não estou dizendo que só os estatísticos podem realizar uma pesquisa de mercado; entretanto, o profissional responsável pela pesquisa necessariamente precisa ter uma boa bagagem de conhecimento para realizar uma boa análise. Isso vai desde o planejamento da coleta dos dados (técnicas de amostragem) até a análise final dos dados obtidos; e só com os conhecimentos triviais é impossível fazer uma boa análise que represente, verdadeiramente, a população estudada.

  5. O PLC 138/2010, que Regulamenta a Profissão de Pesquisador de Mercado, Opinião e Mídia é necessário!

    A Pesquisa de Mercado, Opinião e Mídia é uma atividade essencialmente multidisciplinar, em cujo exercício convergem os conhecimentos de várias ciências e formações profissionais, sem reserva de mercado a nenhuma delas.
    Ao contrário, é preciso que a atividade de Pesquisa de Mercado, Opinião e Mídia seja reconhecida como atividade legal de profissionais de formações diferentes. A multiplicidade de interesses e a especialização em técnicas e processos de execução de pesquisas são requisitos mais importantes do que uma formação acadêmica excludente das demais.

    A multidisciplinaridade que o PL procura reconhecer é essencial ao desenvolvimento da nossa profissão e não exclui nem os estatísticos, nem os economistas, nem os especialistas em opinião pública, nem os psicólogos, nem os publicitários, nem os sociólogos, nem os engenheiros, nem os administradores de empresas. Ao contrário, afirmamos energicamente que a inclusão de todos esses profissionais é necessária na nossa profissão e que esta deve continuar sendo uma atividade respeitada, autônoma e multidisciplinar, como já era desde muito antes de existirem cursos especializados ou faculdades de Estatística, de Psicologia, de Relações Públicas, de Administradores de Empresas, etc.

    Ademais, é preciso atentar para o fato de que a Pesquisa de Mercado, Opinião e Mídia é exercida por profissionais de níveis diversos de educação formal. São também profissionais do ramo os entrevistadores no Brasil todo, cuja atividade não é reconhecida e não requer formação superior. Também o são os profissionais de processamento de dados, os codificadores, os recrutadores de entrevistados, os verificadores, etc.

    Todos devem estar sujeitos a um mesmo conjunto de normas éticas gerais que visem a incrementar a fé pública na pesquisa, a qualidade dos dados obtidos, a proteção do anonimato dos entrevistados, a fidelidade ao interesse dos clientes – e eles merecem a proteção legal – que estamos reivindicando em nome de milhares de profissionais do Brasil todo.

    É em nome deles que pedimos o empenho dos senhores Senadores no sentido de uma aprovação rápida e sem alterações do projeto já aprovado na Câmara dos Deputados.

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