As invenções que criaram o mundo (e a economia) de hoje


Costumava haver duas maneiras de encarar o estudo da história humana. De um lado, os que consideram que a história é produto dos feitos de homens e mulheres; de outro lado, os que consideram que os homens e mulheres são produto da história – ou seja, de seu tempo e das condições que os cercam. A primeira visão é heroica; pessoas especiais moldam as sociedades. Explica-se a independência do Brasil pela personalidade de Dom Pedro I, a Segunda Guerra Mundial pela mente patológica de Adolf Hitler e por aí vai. A segunda visão é determinista: se Einstein não tivesse produzido a Teoria da Relatividade, outra pessoa o teria feito, mais ou menos na mesma época, porque as circunstâncias apontavam para isso.Parece óbvio, pelo menos para quem não toma partido nesse debate, que as duas teses têm seu tanto de verdade – e seu tanto de problemas. A solução, como dizia Aristóteles, pode estar no meio do caminho. Ou numa terceira tese. Neste século 21, tem ganhado força uma corrente de pensadores que atribui o protagonismo da evolução social não às pessoas ou ao contexto histórico, mas às invenções. Claro, toda invenção nasce da mente humana. Mas o argumento aqui é que elas determinam novas possibilidades, inclusive de outras invenções, e por isso mais guiam a história do que são guiadas por ela. Como se fossem seres vivos – e nós, suas realizações.

Um exemplo recente dessa linha é o livro Para Onde Nos Leva a Tecnologia, de Kevin Kelly, fundador da revista Wired. O título em inglês é mais peremptório: what technology wants – o que a tecnologia quer. O conceito básico é que a tecnologia é uma tentação e uma facilidade, e nós seguimos esse caminho, mesmo se temos a crença de que o estamos construindo.
Não há escassez de argumentos erguidos com essa premissa. Um deles é que a informação quer ser livre (um mantra de hackers pelo mundo afora), como se tivesse uma consciência e uma vontade. Outro é que a singularidade é inevitável – a partir do momento em que os robôs puderem construir robôs mais inteligentes que eles próprios, esse processo vai torná-los senhores do mundo.

Essa premissa de que a tecnologia determina seu próprio caminho está no cerne do novo livro do economista e jornalista Tim Harford, Fifty Inventions That Shaped the Modern Economy (50 invenções que moldaram a economia moderna).

Harford é autor da coluna The Undercover Economist (O economista disfarçado) no jornal Financial Times e um dos maiores expoentes da voga dos explicadores da economia, junto com a dupla Freakonomics. Ninguém mais gabaritado que ele, portanto, para pinçar 50 ideias marcantes da evolução da sociedade e as expor com uma narrativa envolvente e instrutiva.

De fato, é isso o que ele faz, e muito bem feito – embora diga, nas primeiras páginas do livro, que não é isso o que quer fazer.

Vencedores e perdedores

O problema é que o que Harford quer fazer não fica muito claro. Ele não chega a defender a tese de que as invenções guiam o progresso. Ele apenas as usa para exemplificar os caminhos que o mundo tomou, e esgrime o incontestável argumento de que toda tecnologia traz mudanças, e toda mudança tem vencedores e perdedores.

Tome-se seu primeiro exemplo como exemplo: o arado. Para Harford, o arado ilustra vários dos temas de seu livro: “o modo como novas ideias com frequência mudam o equilíbrio de poder econômico, criando novos vencedores e novos perdedores; como os impactos econômicos podem ser atrelados a impactos no nosso modo de vida, tal como a mudança de relação entre homens e mulheres; e como uma invenção como o arado abre as possibilidades para outras invenções – a escrita, os direitos de propriedade, o fertilizante químico e muito mais”.

Segundo Harford, o arado elevou a eficiência da agricultura ao ponto de torná-la irresistível para a raça humana. A partir dele, as pessoas deixaram o modo de vida de caça e coleta e se fixaram em volta das plantações, o que deu origem às cidades e, posteriormente, à civilização como a conhecemos.

Numa das primeiras notas deste capítulo, Harford reconhece que há teorias concorrentes, como a de que as cidades nasceram primeiro, em função do comércio, e paulatinamente surgiram as tecnologias agrícolas, como o arado e a domesticação dos animais. Segundo ele, isso não tiraria o valor central do arado.

Mas tira. Uma coisa é a tecnologia dar origem a um novo modo de vida, como implica o título do livro. Outra, bem diferente, é ela ser consequência, ou produto, ou evolução concomitante ao progresso social. No primeiro caso, os usuários de tecnologia são vítimas. No outro, são sujeitos.

O valor das tecnologias

Por incrível que pareça, o fato de Harford montar um livro com uma base tão frágil não o torna um livro ruim. Ao contrário. Por dois motivos.
O primeiro é, como dito acima, seu talento para escrever textos encantadores e instrutivos. O livro é menos uma defesa de uma tese do que uma coletânea de ensaios sobre economia – tanto que se origina de um podcast que produziu para a BBC, no ano passado.

Melhor ainda, as escolhas de Harford em geral não são as óbvias. Sim, o iPhone está lá. Mas também estão o arado, o arame farpado, o estado de bem-estar social, a pílula, as companhias de responsabilidade limitada, a pesquisa de mercado. Até as consultorias estratégicas fazem parte da lista.
Não são ensaios extensos sobre cada tecnologia, porque não caberiam grandes mergulhos em cada uma num livro de 321 páginas. Mas é espaço suficiente para provocar algumas surpresas.

O ar-condicionado, por exemplo. Ele não apenas elevou a produtividade nos escritórios. Não fosse por ele, é possível que os cinemas não tivessem decolado. Nos anos 1920, as pessoas relutavam em entrar numa sala cheia de seres que transpiram, amontoados num ambiente abafado. O ar-condicionado trouxe o público. E contribuiu para outro fenômeno dos dias de hoje: o sucesso dos shopping centers. Ou tome-se o contêiner. Parece uma invenção óbvia. Mas a dificuldade, no caso, era a padronização. Sem ela, o carregamento de mercadorias era uma complicação logística difícil de ultrapassar. Quando o mesmo sistema trafega por navios, trens e caminhões… facilita-se o comércio transnacional e cria-se a globalização.

Está claro que Harford não acredita que o contêiner deu origem à globalização. E aí está a segunda grande qualidade do livro. A tecnologia é um chamariz para que ele comente o contexto que engendrou vários dos elementos da economia moderna.

A pesquisa de mercado lhe permite falar sobre a passagem de uma economia liderada pela produção para uma economia liderada pelo consumo.

O jantar pré-pronto lhe permite falar como a industrialização da comida mudou nossas vidas “em dois importantes aspectos: ela liberou as mulheres dos afazeres domésticos, removendo um grande obstáculo para a adoção de carreiras profissionais; mas ao tornar cada vez mais conveniente a ingestão de calorias sem valor nutricional, ela também liberou nossas cinturas para se expandir”.

Ao longo de cada capítulo, fica claro que, assim como as pessoas, nenhuma tecnologia é uma ilha. É até difícil destacar onde uma invenção começa, quem a produziu, quando ela pode ser considerada pronta.
Certamente, não foram apenas 50 invenções que nos trouxeram até aqui. Mas a ideia geral é válida: tudo o que fazemos volta para nós mesmos. Às vezes de formas inesperadas.

Fonte: EXAME

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