13 percepções sobre a disputa Bolsonaro—Haddad e o momento político do país

A eleição acabou, mas vale ler essa análise, super interessante!

Nunca a população discute tanto estatística e probabilidades matemáticas quanto nas eleições.

É um sem fim de pesquisas eleitorais, institutos, percentuais, gráficos, apontando possíveis vencedores e especulando resultados das eleições. Em 2018, isso só se intensificou. A disputa se instaurou de tal forma que parece que estamos olhando para um placar de futebol, sempre esperando o próximo placar.

Os números dizem muita coisa, mas também tem muito comportamento humano por trás dos X por cento que vão votar num ou outro candidato, os X por cento de indecisos.

Essa pesquisa quis trazer à tona o pensamento por trás dos números.

O que pensa quem diz que está indeciso? E quem vai votar no Bolsonaro? E no Haddad?

Foram 60 entrevistas individuais, mais de 60 horas de gravações das conversas e muitas horas de análise para chegarmos a alguns resultados que revelam como se informam e como brasileiros que vão às urnas pensam o 2º turno das eleições presidenciais de 2018.

A primeira conclusão, que não traz muita novidade, é a dificuldade de dialogar. O clima “como no futebol, onde não dá pra discutir” é como muitos descrevem o cenário. A política virou nosso futebol. Carrega o bate-boca inflamado e a violência, só que dessa vez, fora dos estádios. Você já teve medo de sair com a camiseta do seu time? Agora esse medo está nas mulheres, nos ativistas e na comunidade LGBT.

Um dos problemas dessa impossibilidade de diálogo é que os indecisos gostariam muito de conversar, para decidir o seu voto.

Mas alegam que nenhum dos dois lados (tanto os pró-Bolsonaro quanto os pró-Haddad) está conseguindo debater de forma saudável. “Eles só querem me convencer de em quem eu devo votar”, disse uma aposentada de 58 anos que nunca se preocupou tanto com a política do nosso país.

A pressão – e cada um querendo falar mais mal do outro candidato – faz com que os indecisos fechem seus ouvidos e fiquem calados, se sentindo encurralados e muito ansiosos pensando no que irão fazer quando aquele momento chegar: o momento de apertar um botão na urna eletrônica.

A insegurança com relação ao futuro é geral. Alguns definem seu sentimento como medo, outros como apocalipse, outros como preocupação. Parece haver em todos a certeza de que depois de 28 de setembro, os caminhos que forem decididos para o Brasil não têm volta. “Será que ele vai cumprir o que está prometendo?” é uma das dúvidas que paira. Essa carga de responsabilidade faz com que cada um valorize muito o bem precioso que têm, que é o voto. Um voto que sofre muita pressão e influência coletiva – “você não vai votar nele, não vai se manifestar a favor?” – e também influências mais sutis dentro de casa ou na igreja. Aquele voto que deveria ser individual ganha ares de voto coletivo.

Todos querem ser protagonistas destas eleições e espalhar as “verdades” sobre seu candidato. Verdades que sabem que podem ser questionadas.

As palavras “fake news” são mencionadas com naturalidade pelos entrevistados, não importa sua classe social ou formação. Pelo menos nos grandes centros elas já estão incorporadas no glossário político. A desinformação tomou conta dos grupos de whatsapp e as pessoas parecem não mais querer de fato saber o que é realidade, estão mais interessadas em provar suas teorias e qualquer meme que as ajude é válido.

Quem tenta argumentar fazendo buscas no Google e na Wikipedia e mostrando “olha, isso não é verdade” é ignorado por quem está convicto do seu candidato. As explicações para estes comportamentos estão nos estudos das ciências comportamentais e no livro do historiador Yuval Harari, que fala do poder das histórias. Mas com a capacidade de criação e distribuição que vieram com o mundo digital, parece que todos nos tornamos vítimas dessas síndromes.

Ouvindo sessenta pessoas, de diferentes idades, profissões e estados do Brasil, é possível ter clareza das visões por trás dos números. Alguns acreditam que chegaremos lá, nesse futuro, por um caminho. Outros acreditam numa rota muito diferente. Uns querem o que chamam de “inovação na política”, possível nas mãos de alguém pulso firme, militar, com princípios fortes de ordem. Outros imaginam um futuro conectado com sua identidade, com a cultura e princípios humanitários.

De ambos os lados os brasileiros estão se sentido feridos, e nesse jogo político, também estão ferindo uns aos outros.

A única boa notícia que a pesquisa aponta é que parece existir uma coisa em comum entre todos os entrevistados. Todos querem o melhor para o país e a forma como irão votar reflete seus desejos para o Brasil do futuro. As urnas vão nos dizer que futuro é esse.

Um breve resumo com 13 percepções da pesquisa

1. Diferente de eleições anteriores e pelo momento histórico do Brasil, o voto é muito valorizado

2. Os eleitores de Bolsonaro tendem a sentir otimismo e esperança; quem não vota nele tende a sentir pessimismo

3. Para os pessimistas, é forte a sensação de que precisamos olhar pós-2018

4. A insegurança com o futuro, do que vem pela frente, é comum a todos

5. O medo de se manifestar saiu da internet e foi para as ruas — as mulheres são as mais preocupadas com a violência física gerada pela polarização

6. Cada lado acredita que o outro vai transformar o país em uma ditadura

7. Alguns eleitores, mesmo “decididos”, estão abertos a mudar seu voto

8. O diálogo entre quem pensa diferente se tornou quase inviável — e todos parecem lamentar o impacto disso nos grupos de amigos e família

9. Conversas que migram do ambiente coletivo para o privado são as mais positivas — quanto mais um a um, melhor o diálogo

10. Política virou futebol, território passional e de brigas

11. Os eleitores que vêem o voto ligado a uma escolha por direitos humanos são quem mais tem dificuldade de manter a calma numa conversa, segundo eles próprios

12. Os indecisos, que estariam abertos a conversar, evitam fazer isso pela pressão que sofrem

13. Os mesmos indecisos estão ansiosos por uma conversa mais amistosa e menos ligada a convencimento

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Aqui a pesquisa completa. E mais sobre a Talk Inc, realizadora do estudo.

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